quarta-feira, 2 de junho de 2021

Efeito Covid

 



Em março do ano passado, não pensávamos, que essa montanha russa que estamos vivendo com a Covid 19, seria tão longa, tão dura e com tantos efeitos emocionais.

Uma doença que democratizou o mundo através do medo. Sentimos o mesmo medo com doses diferentes; e uma vulnerabilidade incontrolável sem classe social ou privilégios. Cada corpo responde, se defende e se entrega de um jeito, que nem os controladores são capazes de controlar. Nesse contágio universal, ficamos literalmente presos e entregues.

E quais os efeitos de tudo isso? Emocionais, físicos e até espirituais.

Já são mais de 15 meses, and beyond, dessa incerteza, sem sabermos o que vem depois. Para os que tinham medo da vulnerabilidade, bem vindos à realidade atual e quem sabe futura. O futuro ficou mais próximo e o presente um real um pouco ou bem amargo. A morte mais frequente e a fé sinônimo de resiliência.

Os que buscavam um propósito, sobreviver virou uma boa escolha e se ainda conseguirem se manter mentalmente saudáveis e empáticos, podem até ganhar prêmio de reconhecimento.

Tudo isso, porque há mais de 15 meses, and beyond, saímos do liberal e entramos no compulsório. O inesperado que inesperadamente acontecia no dia a dia, deu espaço ao conhecido, que agora dá espaço ao cansaço de dias iguais. Estamos em constante exercício de estarmos conosco, com nossas famílias, amigos mais íntimos.  E, distantes, ou muito distantes de pessoas, rotinas, coisas, gestos, experiências e trocas que eram comuns, acessíveis e naturais em nossas vidas. Percebo que não estávamos preparados para tudo isso. Me sinto às vezes em um episódio de Black Mirror, ou em um desses filmes surrealistas. 

Nas minhas observâncias, percebo que muitos tem enorme desconforto com a intimidade. A intimidade requer autoconhecimento e conhecer o outro, e nem sempre queremos nos enxergar e/ou enxergar o outro, estar tanto conosco ou tanto com o outro.

Nos arrancaram o direito de ir e vir e nos colocaram mordaças. Ao menos quem tinha bafo, descobriu que precisava cuidar do estômago ou da higiene bucal. Mas, quem nos tirou tudo isso?  O universo, ou nós mesmos?

Como estamos nos adaptando sem os prazeres mundanos e as doses maravilhosas de vida que anestesiavam as dores? Como ser criativo em cativeiro, sem as trocas?

Segundo Aristóteles, a natureza humana precisa viver em sociedade, que vivendo em sociedade, o homem realiza seu próprio bem. Isso é tão próprio do homem quanto é próprio da semente de pessegueiro tornar-se uma árvore e produzir pêssegos.

O homem é carente e a carência aponta para a incompletude humana. Ele tem sempre necessidade de um outro semelhante e tão imperfeito quanto ele. Ele se associa para alcançar uma vida perfeita e auto-suficiente. Um ser que não sentisse a necessidade de associar-se seria um Deus ou um animal, segundo Aristóteles.

Quando leio esse pensamento de Aristóteles que morreu 322 a.C – na Grécia Antiga. Vejo que hoje, o homem virou Deus, animal e incapaz de viver só e em sociedade. 

Queremos desesperadamente que essa pandemia passe, mas existe um hoje que precisamos viver. Não podemos permitir que essa “nova vida” e atemporalidade - porque não sabemos o que vem depois, desperte o pior de nós hoje. Que a falta de sociedade e coletividade nos transformem em animais, e nos enlouqueça achando que somos deuses. 

As pessoas estão pirando porque precisam olhar para si, para o próximo, para o mundo. Precisam encarar o medo, viver na vulnerabilidade, na superação e na mudança de papel de controlador para controlado. E no meu entendimento só existe um caminho para isso, (tirando terapia e medicamentos):  O amor. Só o amor é capaz de curar o efeito Covid. 

Texto by Ana Corujo


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